Caminho apressadamente no meio de um oceano de pessoas com olhar vazio, sou apenas mais um dos anónimos cidadãos que todos os dias sabe de cor o trajeto até ao seu emprego, emprego do qual poderemos até não gostar, tudo por causa do filho da puta do nosso chefe a quem odiamos de "morte", ele que para subir na hierarquia da empresa faz de tudo para nos rebaixar, puxando para a sua pessoa os louros que deveriam ser de um qualquer outro, ou até do nojo que nutrimos pelo imprestável colega que é o "bufo" de serviço e faz relatórios pormenorizados sobre tudo o que os colegas dizem ou fazem na hora de expediente.
Emprego esse que apesar de todas essas vicissitudes, agarramos com unhas e dentes para podermos pagar o empréstimo da casa ou do carro que comprámos, as despesas com a educação dos filhos, ou simplesmente para nos alimentarmos e vestirmos, mesmo que tragamos a cobrir o nosso corpo umas roupas gastas que já nem nos lembramos onde as adquirimos, ou até nos esqueçamos que o nosso almoço é uma sopa e uma carcaça com um rissol dentro, num qualquer snack-bar de esquina.
E lá estou eu por entre a multidão, nas escadas rolantes de uma qualquer estação de metropolitano de Lisboa, olhar posto no bico dos meus sapatos e nos calcanhares da pessoa que me precede, uma defesa que arranjei para não olhar para o lado e ver alguém de mão estendida a pedir uma esmola, de um idoso com dificuldades de locomoção a precisar de uma mão amiga ou de uma qualquer pessoa angustiada necessitando de um ombro amigo.
Continuo a caminhar (agora no passeio de uma qualquer rua), e para além do olhar mortiço no chão que me faz aqui e ali esbarrrar num qualquer outro que caminha como eu, escuto nos "headphones" uma música que passa numa qualquer estação de rádio, embora definitivamente desconheça o intérprete pois nem sequer estou a ouvir o que me entra pelos ouvidos...é apenas mais uma defesa que arranjei, para evitar que alguém me interpele para um qualquer inquérito manhoso ou para mais um peditório solidário...
No "chip" que introduzi na minha cabeça apenas penso como poderei conseguir passar mais um dia no trabalho, sem fazer nenhuma asneira, mandando o chefe à merda ou pior, apertando-lhe o gasganete e colocando o seu rosto da côr da camisola do Benfica, até que venha alguém afastá-lo das minhas garras...Não é que nutra um ódio de estimação pelo meu chefe, mas apenas porque para mim, ele é a personificação da prepotência e arbitrariedade que abomino, e o pior é que cada vez mais estou a ficar parecido com ele; a forma automática como decorrem todos os meus dias, o quase desprezo que sinto pelo meu semelhante a ponto de o ignorar com todas a minhas defesas, faz-me cada vez mais sentir uma máquina e não um ser humano.
Então é assim, a partir de agora nunca mais vou mergulhar o olhar no chão e vou passar a ver quem caminha a meu lado (mesmo que não seja pedinte), vou escutar o que qualquer indivíduo tenha para me dizer (mesmo que não possa contribuir para a causa), e vou mais do que tudo evitar fazer algo de mal ao meu chefe, pois ele precisa é de alguém que o compreenda e o ajude a ver o caminho; o caminho que deveremos escolher não é o do ódio mas sim o do Amor, da compreensão e da fraternidade, pois só todos juntos poderemos desbravar o caminho pejado de escolhos que temos para ultrapassar...o nosso "focus" tem de estar nos políticos e políticas que nos vão fazendo cada vez mais autómatos sem sentimentos e emoções, e cada vez menos pessoas com todas as coisas erradas que o ser humano tem, mas com a racionalidade para pensar num bem comum.
Estou a sair de casa, os "headphones" ficaram na mesa de cabeceira, a música que hoje irei ouvir serão os ruídos que emanam num qualquer dia a dia normal, o chilrear dos pássaros, as buzinadelas de insatisfação de um qualquer automobilista, o praguejar de um qualquer indivíduo... Irei olhar para o meu semelhante e dar-lhe um sorriso mesmo que ele não retribua o gesto...Vou mudar-me e com isso, a pouco e pouco tentarei que os outros mudem...Amanhã seremos já mais cidadãos sem "headphones" nos ouvidos e com um sorriso no rosto, a caminhar no meio de uma multidão cada vez menos anónima...
Esta é a minha maneira de tentar mudar o mundo ou pelo menos... o meu mundo! :)